Boas
Li estes dois textos e achei que deveria partilhar a quem ainda não leu. Os textos retratam com exactidão o rumo seguido pela Presidência da República apesar de estarem escritos de forma a favorecerem um político com o qual não me identifico, ainda assim gostei da verdade publicada ainda para mais no Jornal em questão...
"Em tempos, Saramago disse numa entrevista que lamentava que a esquerda fosse tão estúpida. A acusação prendia-se naturalmente com a visão do próprio sobre o papel da esquerda. Mas estava a ser injusto. A sua morte veio demonstrar que a direita continua a ser bastante mais estúpida do que a esquerda.
Tratando-se de arte, a avaliação que cada um faz da obra de Saramago é naturalmente subjetiva. Há quem goste muito, pouco ou nada. Mas os factos são incontornáveis. Saramago conseguiu o Prémio Nobel da Literatura. Único no género e segundo que um português recebe desde 1901. O feito é, por isso, em si mesmo, absolutamente notável. O planeta está cheio de excelentes escritores e de poderosas máquinas de lobbying, muitas delas financiadas por grandes editoras e pelos próprios governos. Conseguir um Nobel prestigia acima de tudo o próprio, mas também o país que o viu nascer e, tratando-se de literatura, a língua em que escreve.
Os seus livros são vendidos em todo o mundo, traduzidos em muitas línguas e o próprio tornou-se numa referência maior da cultura contemporânea global. Saramago tem ainda o mérito de ter sabido aproveitar muito bem o prémio. Conseguiu superar o destino de "miss" mundo, que brilha durante um ano para logo de seguida desaparecer na sombra. Continuou a escrever cada vez melhor e a intervir civicamente. Tornou-se voz incontornável num mundo de gente resignada e muda. O que é, também, notável, independentemente da opinião que cada um tem do que foi dito.
Perante isto, a direita portuguesa achou por bem não partilhar o reconhecimento que é devido a Saramago no momento da sua morte. Houve mesmo quem, com o rancor dos nulos, o atacasse de várias maneiras. Gente mesquinha fixou-se nesta ou naquela posição mais polémica, como se o debate de ideias divergentes não fosse a essência da democracia. Intelectuais e políticos da direita, cujas elucubrações não chegam a Badajoz, debitaram a habitual má-língua dos frustrados. O ódio da direita à cultura e, sobretudo, à liberdade ficou mais uma vez comprovado.
Neste contexto, numa ausência reveladora, o Presidente da República achou por bem tomar partido. Em vez de acompanhar o País, alinhou com a direita tacanha. Mostrou que não é o Presidente de todos os portugueses, mas chefe de uma fação. Motivado por uma velha quezília ou pela preguiça, tanto faz, Cavaco Silva não percebeu que é nestes momentos que se vê quem tem estatura moral, cívica e cultural para representar o País. Ele obviamente não tem. Um Presidente que não reconhece o mérito individual de um dos seus mais notáveis compatriotas, não merece o cargo.
Do mesmo modo a Igreja não perdeu a oportunidade para mostrar o quanto é um fator de atraso. Tudo aquilo que Saramago disse ficou plenamente demonstrado. A crença no sobrenatural resulta invariavelmente numa extrema intolerância e, sempre que se apresenta a oportunidade, numa extrema violência contra os que pensam livre. A Igreja não mudou, nem aprendeu nada com os séculos. Resiste simplesmente à espera de uma reviravolta histórica que lhe permita regressar às perseguições.
Esta estreiteza mental da direita excede a conjuntura e é preocupante. A valsa lenta da democracia irá, mais cedo ou mais tarde, dar a esta gente o poder de mandar. O lamentável episódio com Saramago anuncia tempos de sectarismo, de retrocesso civilizacional e cultural, de discriminação política e cívica. No campo cultural este tipo de comportamento é particularmente nefasto para um país. A cultura tornou-se num importante motor de desenvolvimento social e económico. A censura não é favorável à criatividade e à inovação.
A produção cultural, mais do que qualquer outra coisa, é o campo da expressão maior do indivíduo, das suas visões e talentos. A verdadeira cultura, aquela que faz evoluir o mundo, não pode deixar de ser sempre irreverente, incómoda, demolidora de dogmas e verdades feitas. A história prova-o à exaustão. Tudo o que foi mudança social começou por ser anúncio cultural. Contra tudo e contra todos, sempre que necessário. E sobretudo contra os poderes instalados. Não o perceber é realmente ser muito estúpido."
Leonel Moura
A estupidez da direita
Jornal de Negócios, 25 de Junho de 2010
[email protected]
"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter,
ter deve ser a pior maneira de gostar."
Até sempre...
Li estes dois textos e achei que deveria partilhar a quem ainda não leu. Os textos retratam com exactidão o rumo seguido pela Presidência da República apesar de estarem escritos de forma a favorecerem um político com o qual não me identifico, ainda assim gostei da verdade publicada ainda para mais no Jornal em questão...
"Em tempos, Saramago disse numa entrevista que lamentava que a esquerda fosse tão estúpida. A acusação prendia-se naturalmente com a visão do próprio sobre o papel da esquerda. Mas estava a ser injusto. A sua morte veio demonstrar que a direita continua a ser bastante mais estúpida do que a esquerda.
Tratando-se de arte, a avaliação que cada um faz da obra de Saramago é naturalmente subjetiva. Há quem goste muito, pouco ou nada. Mas os factos são incontornáveis. Saramago conseguiu o Prémio Nobel da Literatura. Único no género e segundo que um português recebe desde 1901. O feito é, por isso, em si mesmo, absolutamente notável. O planeta está cheio de excelentes escritores e de poderosas máquinas de lobbying, muitas delas financiadas por grandes editoras e pelos próprios governos. Conseguir um Nobel prestigia acima de tudo o próprio, mas também o país que o viu nascer e, tratando-se de literatura, a língua em que escreve.
Os seus livros são vendidos em todo o mundo, traduzidos em muitas línguas e o próprio tornou-se numa referência maior da cultura contemporânea global. Saramago tem ainda o mérito de ter sabido aproveitar muito bem o prémio. Conseguiu superar o destino de "miss" mundo, que brilha durante um ano para logo de seguida desaparecer na sombra. Continuou a escrever cada vez melhor e a intervir civicamente. Tornou-se voz incontornável num mundo de gente resignada e muda. O que é, também, notável, independentemente da opinião que cada um tem do que foi dito.
Perante isto, a direita portuguesa achou por bem não partilhar o reconhecimento que é devido a Saramago no momento da sua morte. Houve mesmo quem, com o rancor dos nulos, o atacasse de várias maneiras. Gente mesquinha fixou-se nesta ou naquela posição mais polémica, como se o debate de ideias divergentes não fosse a essência da democracia. Intelectuais e políticos da direita, cujas elucubrações não chegam a Badajoz, debitaram a habitual má-língua dos frustrados. O ódio da direita à cultura e, sobretudo, à liberdade ficou mais uma vez comprovado.
Neste contexto, numa ausência reveladora, o Presidente da República achou por bem tomar partido. Em vez de acompanhar o País, alinhou com a direita tacanha. Mostrou que não é o Presidente de todos os portugueses, mas chefe de uma fação. Motivado por uma velha quezília ou pela preguiça, tanto faz, Cavaco Silva não percebeu que é nestes momentos que se vê quem tem estatura moral, cívica e cultural para representar o País. Ele obviamente não tem. Um Presidente que não reconhece o mérito individual de um dos seus mais notáveis compatriotas, não merece o cargo.
Do mesmo modo a Igreja não perdeu a oportunidade para mostrar o quanto é um fator de atraso. Tudo aquilo que Saramago disse ficou plenamente demonstrado. A crença no sobrenatural resulta invariavelmente numa extrema intolerância e, sempre que se apresenta a oportunidade, numa extrema violência contra os que pensam livre. A Igreja não mudou, nem aprendeu nada com os séculos. Resiste simplesmente à espera de uma reviravolta histórica que lhe permita regressar às perseguições.
Esta estreiteza mental da direita excede a conjuntura e é preocupante. A valsa lenta da democracia irá, mais cedo ou mais tarde, dar a esta gente o poder de mandar. O lamentável episódio com Saramago anuncia tempos de sectarismo, de retrocesso civilizacional e cultural, de discriminação política e cívica. No campo cultural este tipo de comportamento é particularmente nefasto para um país. A cultura tornou-se num importante motor de desenvolvimento social e económico. A censura não é favorável à criatividade e à inovação.
A produção cultural, mais do que qualquer outra coisa, é o campo da expressão maior do indivíduo, das suas visões e talentos. A verdadeira cultura, aquela que faz evoluir o mundo, não pode deixar de ser sempre irreverente, incómoda, demolidora de dogmas e verdades feitas. A história prova-o à exaustão. Tudo o que foi mudança social começou por ser anúncio cultural. Contra tudo e contra todos, sempre que necessário. E sobretudo contra os poderes instalados. Não o perceber é realmente ser muito estúpido."
Leonel Moura
A estupidez da direita
Jornal de Negócios, 25 de Junho de 2010
[email protected]
"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter,
ter deve ser a pior maneira de gostar."
Até sempre...