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Dois textos, uma realidade...

PedroUMM

UMMzão
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31 Mar 2006
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Boas

Li estes dois textos e achei que deveria partilhar a quem ainda não leu. Os textos retratam com exactidão o rumo seguido pela Presidência da República apesar de estarem escritos de forma a favorecerem um político com o qual não me identifico, ainda assim gostei da verdade publicada ainda para mais no Jornal em questão...



"Em tempos, Saramago disse numa entrevista que lamentava que a esquerda fosse tão estúpida. A acusação prendia-se naturalmente com a visão do próprio sobre o papel da esquerda. Mas estava a ser injusto. A sua morte veio demonstrar que a direita continua a ser bastante mais estúpida do que a esquerda.

Tratando-se de arte, a avaliação que cada um faz da obra de Saramago é naturalmente subjetiva. Há quem goste muito, pouco ou nada. Mas os factos são incontornáveis. Saramago conseguiu o Prémio Nobel da Literatura. Único no género e segundo que um português recebe desde 1901. O feito é, por isso, em si mesmo, absolutamente notável. O planeta está cheio de excelentes escritores e de poderosas máquinas de lobbying, muitas delas financiadas por grandes editoras e pelos próprios governos. Conseguir um Nobel prestigia acima de tudo o próprio, mas também o país que o viu nascer e, tratando-se de literatura, a língua em que escreve.

Os seus livros são vendidos em todo o mundo, traduzidos em muitas línguas e o próprio tornou-se numa referência maior da cultura contemporânea global. Saramago tem ainda o mérito de ter sabido aproveitar muito bem o prémio. Conseguiu superar o destino de "miss" mundo, que brilha durante um ano para logo de seguida desaparecer na sombra. Continuou a escrever cada vez melhor e a intervir civicamente. Tornou-se voz incontornável num mundo de gente resignada e muda. O que é, também, notável, independentemente da opinião que cada um tem do que foi dito.

Perante isto, a direita portuguesa achou por bem não partilhar o reconhecimento que é devido a Saramago no momento da sua morte. Houve mesmo quem, com o rancor dos nulos, o atacasse de várias maneiras. Gente mesquinha fixou-se nesta ou naquela posição mais polémica, como se o debate de ideias divergentes não fosse a essência da democracia. Intelectuais e políticos da direita, cujas elucubrações não chegam a Badajoz, debitaram a habitual má-língua dos frustrados. O ódio da direita à cultura e, sobretudo, à liberdade ficou mais uma vez comprovado.

Neste contexto, numa ausência reveladora, o Presidente da República achou por bem tomar partido. Em vez de acompanhar o País, alinhou com a direita tacanha. Mostrou que não é o Presidente de todos os portugueses, mas chefe de uma fação. Motivado por uma velha quezília ou pela preguiça, tanto faz, Cavaco Silva não percebeu que é nestes momentos que se vê quem tem estatura moral, cívica e cultural para representar o País. Ele obviamente não tem. Um Presidente que não reconhece o mérito individual de um dos seus mais notáveis compatriotas, não merece o cargo.

Do mesmo modo a Igreja não perdeu a oportunidade para mostrar o quanto é um fator de atraso. Tudo aquilo que Saramago disse ficou plenamente demonstrado. A crença no sobrenatural resulta invariavelmente numa extrema intolerância e, sempre que se apresenta a oportunidade, numa extrema violência contra os que pensam livre. A Igreja não mudou, nem aprendeu nada com os séculos. Resiste simplesmente à espera de uma reviravolta histórica que lhe permita regressar às perseguições.

Esta estreiteza mental da direita excede a conjuntura e é preocupante. A valsa lenta da democracia irá, mais cedo ou mais tarde, dar a esta gente o poder de mandar. O lamentável episódio com Saramago anuncia tempos de sectarismo, de retrocesso civilizacional e cultural, de discriminação política e cívica. No campo cultural este tipo de comportamento é particularmente nefasto para um país. A cultura tornou-se num importante motor de desenvolvimento social e económico. A censura não é favorável à criatividade e à inovação.

A produção cultural, mais do que qualquer outra coisa, é o campo da expressão maior do indivíduo, das suas visões e talentos. A verdadeira cultura, aquela que faz evoluir o mundo, não pode deixar de ser sempre irreverente, incómoda, demolidora de dogmas e verdades feitas. A história prova-o à exaustão. Tudo o que foi mudança social começou por ser anúncio cultural. Contra tudo e contra todos, sempre que necessário. E sobretudo contra os poderes instalados. Não o perceber é realmente ser muito estúpido."



Leonel Moura

A estupidez da direita

Jornal de Negócios, 25 de Junho de 2010

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"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter,
ter deve ser a pior maneira de gostar."

Até sempre...
 

PedroUMM

UMMzão
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31 Mar 2006
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"Havia nele, no que escrevia e dizia, mas, também, na forma como fixava as coisas e os homens, essa espécie de iluminação que diferencia, essa diferença que ilumina. José Saramago foi um grande português, com duas pátrias amadas: Portugal e Pilar del Rio. Não há metáfora nesta afirmação. Pilar era a pátria redesenhada do seu próprio coração; e Portugal o desejo permanente, nunca apaziguado, da linguagem entendida como emoção e conquista.

Um português desta estirpe e desta grandeza jamais seria entendido pelo português minúsculo, sem dimensão e sem mérito - como é o dr. Cavaco. Saramago possuía a medida da pátria. O dr. Cavaco não dispõe da altura exigida pelas suas funções. Saramago amava o seu povo porque nos conhecia. O dr. Cavaco despreza-nos por ignorância.

Ao ausentar-se das cerimónias nacionais ao falecimento do escritor (do grande escritor), dispensou-se de se associar ao respeito colectivo, e expôs-se como uma criatura ressentida, medrosa, escondida, cabisbaixa. Este senhor é o mesmo que recusou uma pensão à viúva de Salgueiro Maia e premiou ex-agentes da PIDE, "por bons serviços prestados à pátria." É aquele que inventou a existência de escutas em Belém, num dos episódios mais grotescos e farsolas da II República. É o indivíduo que presidiu ao Ministério responsável pelo impedimento de José Saramago em se candidatar a um prémio literário europeu. Refiro-me, claro!, ao facto de ter silenciado sobre a decisão do subsecretário Sousa Lara, e do secretário Santana Lopes, ambos estes "governantes" da Cultura, em impedirem que o romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" fosse, sequer, admitido a concurso.

A nota oficial da Presidência da República, em que se pretende explicar a ausência do Chefe de Estado no velório de José Saramago, é um documento lamentável. Corresponde, aliás, à ambiguidade e evasivas com que promulgou a lei do casamento de homossexuais. O dr. Cavaco não enfrenta: evita.

As "explicações" que tartamudeou nos Açores são de molde a revoltar-nos pelo que comportam de divisão social, e pelo que exprimem de incompreensão relativamente ao significado cultural de Saramago, além da hipocrisia e do cinismo de frases como esta: "Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente o escritor, embora tenha lido os seus livros." Estamos mesmo a ver o dr. Cavaco, nos tempos livres, sentado num sofá e debruçado nas páginas de qualquer romance do autor. Estamos mesmo a vê-lo.

É este cavalheiro de pouca estatura intelectual, minguada extensão de estadista, certamente o pior Presidente da República em democracia - é este homem sombrio e tíbio, vingativo e rancoroso que a Direita deseja manter em Belém.

Não há comparação possível, mesmo reclamando-nos de tolerância cristã e piedade sem peias, entre José Saramago e o dr. Cavaco. O primeiro orgulha-nos e enobrece-nos. Levou o nome da pátria às sete partidas do mundo; pôs-nos a reflectir e exigiu que não nos submetêssemos, que fôssemos homens livres, que rejeitássemos e combatêssemos a servidão. Nada devemos ao dr. Cavaco, a não ser decepções, arrogância, soberba, trapalhadas culturais. Nada, neste homem hirto, pouco à vontade, irritadiço, colérico quando contrariado, o recomenda ao nosso respeito, consideração e estima.

E poucos gostam dele, inclusive os da sua área ideológica, se é que ele sabe, em rigor, o que isso significa. O dr. Cavaco é um embaraço para os seus correligionários, e um pesadelo para os que admitem a democracia como uma instância de sabedoria, de compreensão, de complacência e de liberdade livre.

José Saramago esteve sempre onde devia estar.
O dr. Cavaco está a mais onde está.

APOSTILA 1. - Há uns anos largos, num programa de Margarida Marante, na SIC, foi apresentado um encontro aparentemente imponderável: D. Manuel Clemente, então reitor do Seminário dos Olivais, e José Saramago, já então muito conhecido e muito polémico. Foi um diálogo inesquecível. D. Manuel Clemente conhecia a obra do escritor, e este demonstrou uma atenção muito grande por tudo quanto o seu interlocutor dizia, sobretudo pelas interrogações sobre Deus e a religião que lhe formulava. Dois homens cultos, que se respeitavam e que expunham aos telespectadores uma forte dignidade nas suas opções essenciais e uma impecável decência nas suas interpelações e propostas. Ainda esperei que alguém, nos jornais e nas televisões, se lembrasse do acontecimento, e solicitasse a D. Manuel Clemente um depoimento, um artigo, um comentário sobre Saramago. Porém, a memória das Redacções parece estar irremediavelmente perdida. Na ausência desta grande figura da Igreja, perdemos todos, certamente, uma bela demonstração de pedagogia e de cultura. Paciência.

APOSTILA 2. - A hierarquia da Igreja Católica Portuguesa distanciou-se do Vaticano e do seu órgão, "L'Osservatore Romano", que, num artigo inconcebível, cobriu José Saramago de injúrias. Uma vergonha à qual os bispos portugueses recusaram associar-se, mantendo uma elevação moral que merece aplauso. Como aplauso merecem os padres Carreira das Neves e Tolentino de Mendonça pelas declarações que prestaram publicamente."

Baptista Bastos

A grandeza de um e a tacanhez do outro

Jornal de Negócios, 25 de Junho de 2010

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Obrigado Pedro,

Não tinha tido oportunidade de ler os artigos e com este teu gesto de partilha já me puseste a reflectir(y)

cUMMprimentos,

 
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