No ano seguinte, Mário Soares recebe uma delegação da UNITA, chefiada pelo general Ben-Ben.
O MNE angolano, Venâncio de Moura, pede explicações. Na ocasião, o oficioso Jornal de Angola publica um artigo intitulado «Um boelo» [burro, em kimbundo], no qual Mário Soares é injuriado: «É mesmo um boelo esse bochechas. Nem vergonha tem naquela kalanga [cara] por tão grandes desavergonhices que estampam o seu mau caratismo e maldade».
Encontro falhado em Maputo.
A posse de Joaquim Chissano como Presidente de Moçambique, em 1994, dá ensejo a que Mário Soares e José Eduardo dos Santos se encontrem circunstancialmente em Maputo. Mas o Presidente angolano só teve tempo para uma audiência com Durão Barroso, falando exclusivamente com este sobre a situação angolana.
No mesmo ano, o embaixador angolano, Ruy Mingas, a propósito de uma carta dirigida a José Eduardo dos Santos por Mário Soares, acusou este de «interferências incorrectas e abusivas» que teriam comprometido a presença de Angola na Cimeira Lusófona. O Governo português foi então alvo de críticas por ter reagido de forma discreta. Durão Barroso protestou junto do seu homólogo angolano, mas recusou-se a fazer qualquer desagravo público.
De visita às Seychelles, em 1995, Mário Soares, em conversa descontraída com os jornalistas, após o jantar, falou de Angola (que visitaria oficialmente no ano seguinte) e sobre os líderes em confronto, emitindo esta opinião: «José Eduardo dos Santos é um homem banal. Não provoca a ninguém um virar de pescoço quando entra numa sala. Jonas Savimbi tem uma presença esmagadora. É um verdadeiro líder africano».
Não obstante estas afirmações, Mário Soares soube ser diplomata na visita oficial que realizou a Angola em 1996, pois embora tenha recebido em Luanda uma representação da UNITA, recusou-se a ir ao Bailundo encontrar-se com Savimbi, o qual, por outro lado, se recusara a ir a Luanda para ser recebido por Soares.
A escalada verbal atingiria um nível sem precedentes no ano 2000. Através de um artigo no Expresso, Mário Soares acusou o Governo angolano de graves violações dos direitos humanos na escalada da guerra e no cerceamento da liberdade de Imprensa, com realce para a prisão e julgamento do jornalista Rafael Marques por ter escrito um artigo («O Baton da Ditadura», publicado no semanário luandense Agora) considerado difamatório do Presidente José Eduardo dos Santos.
A propósito, Soares enunciou detalhadamente a posição condenatória do regime angolano, em que participara como dep***do do Parlamento Europeu reunido em Estrasburgo. O 'fait divers' de Gama. A reacção não se fez esperar, por intermédio do ministro angolano da Comunicação Social, Hendrick
Vaal Neto, que acusou Mário Soares e seu filho João (na altura presidente da Câmara de Lisboa) de «beneficiarem do tráfico de diamantes», acusação logo corroborada pelo dep***do angolano MacMahon.
Em Portugal, estas declarações inflamaram todos os sectores da opinião pública, pondo em confronto diversos graus de entendimento do caso e da sua gravidade. O Presidente Jorge Sampaio, regressado de uma visita á Roménia, escreveu ao seu homólogo angolano, considerando as declarações do ministro «inaceitavelmente caluniosas». Também o primeiro-ministro, António Guterres, escreveu uma carta ao Presidente angolano, dando conhecimento da mesma a Mário Soares. No entanto, a reacção do MNE Jaime Gama, que considerou o caso um 'fait divers', limitando-se a falar com o seu homólogo e a pedir mais contenção, suscitou um coro de críticas, inclusivamente dentro do seu próprio partido.
O assunto foi a debate na Assembleia da República, onde curiosamente a proposta aprovada não foi a do PS mas a redigida pelo Bloco de Esquerda, em que se repudiavam as palavras do ministro angolano e se manifestava solidariedade, não aos Soares, mas «a todos aqueles que em Angola lutam pela paz, pela defesa dos direitos humanos e das liberdades democráticas».
Perante as vozes inflamadas que se levantaram (Paulo Portas chegou a dizer que «Portugal está a sofrer um vexame diplomático») não faltaram também os apelos ao bom senso, por vezes com perguntas dirigidas à memória dos mais exaltados: quando a UNITA chamou «criminosos de guerra» a Almeida Santos, António Guterres, Jaime Gama e Durão Barroso, alguém tomou posição e manifestou solidariedade? Alguém se lembra da resposta do Governo de Cavaco quando Jonas Savimbi chamou «garoto» ao então ministro Durão Barroso?
No auge da contenda que se arrastou nos media semanas a fio ouve excessos de linguagem de parte a parte. Assim, por exemplo, um tal Chicoadão referiu-se a João Soares, nas páginas do Jornal de Angola, como «um gatuno comprovado das riquezas de Angola». Por seu turno, João Soares, numa entrevista ao semanário Expresso, classificou os dirigentes angolanos como «um bando de cleptócratas». O mesmo jornal resolveu ouvir o ex-dirigente do PS, Rui Mateus, que durante anos fora responsável pelas relações internacionais do partido e que era autor do polémico livro Memórias de um PS desconhecido. Das suas declarações, importa reter esta revelação:
«Pela minha parte, o PS nunca recebeu nada, nem do MPLA nem da UNITA. O PS mantinha relações clandestinas com a UNITA, mas não por mim. Eram relações escondidas, que o dr. Soares durante muito tempo manteve confidenciais», em virtude de «não querer que isso fosse do conhecimento da Internacional Socialista, onde o movimento da UNITA não era reconhecido».
Esclarecedor. Esta peça complementa um artigo sobre as relações luso-angolanas publicado na última edição da revista Espaço África.
* Acácio Barradas é um jornalista português. Trabalhou em Luanda nos matutinos O Comércio e A Província de Angola e foi chefe de redacção do ABC-Diário de Angola e dos semanários Jornal do Congo e revista Notícia.
Regressou a Portugal em 1968 e foi chefe de redacção do Diário Popular, Diário de Lisboa e Diário de Notícias. Actualmente, dedica-se a trabalhos de investigação histórica.
NA ROTA DO NARCOTRÁFICO E TRÁFICO DAS RIQUEZAS DE ANGOLA:
Soares, filho, no regresso ao lugar do crime.
Dizem os sábios que: "Quem sai aos seus, não degenera" Sem dúvida que as evidências confirmam essa verdade!
A Jamba era o centro nevrálgico do tráfico de marfim, diamantes, madeiras preciosas e droga!
O texto abaixo foi extraído do livro Edens Exiles subtítulo One Soldiers Fight For Paradise do coronel Jan Breytenbach o fundador do 32 Buffalo Battalion, Batalhão Búfalo, e que foi treinado por ele na Faixa de Caprivi. A Faixa de Caprivi é um pedaço de terra entre o norte de Botswana, sul de Angola, e Zâmbia.
"Pouco depois da descolagem o avião caiu pela excessiva carga de marfim e embateu numa árvore, despenhando-se em chamas. O filho do então Presidente da República ficou entre a vida e a morte. Os outros dois dep***dos sofreram ferimentos mais ligeiros.
Joaquim Augusto, piloto e dono do avião que caiu na Jamba, com João Soares a bordo, recebeu três mil toneladas de marfim em pagamento por serviços prestados.
O coronel Jan Breytenbach denunciou os mafiosos e foi saneado.
"Exigi que acabasse imediatamente com o tráfico de marfim e de droga entre a Zâmbia, Jamba e Joanesburgo, conta Breytenbach. Mas exigiu mais:
Vejam-se livres da máfia portuguesa e tomem imediatamente medidas porque estão a dizimar as manadas de elefantes e rinocerontes. A resposta foi eloquente. E não tardaram as sanções contra ele. O coronel Breytenbach pediu para passar à reserva porque queria gerir o parque natural de Caprivi, na Namíbia. Iniciou funções mas por pouco tempo. A máfia de traficantes de droga, marfim e diamantes mexeu os cordelinhos em Pretória e ele foi despedido sem qualquer justificação.
O mesmo aconteceu a um jovem tenente que em 1987 e 1988 foi combater no Cuando Cubango. O coronel Ian Breytenbach conta como foi saneado:
-o jovem tenente informou-me que ao regressar de uma operação em Angola, estava sem mantimentos para a sua tropa. Foi ao Rundu abastecer-se num armazém da Inteligência Militar. Abriu uma caixa e estava cheia de dentes de elefante. Abriu outra e outra, a mesma coisa. Todas as caixas do armazém, em vez de víveres, estavam cheias de marfim. As caixas iam ser trocadas por outras cheias de víveres, mas os camiões estavam atrasados.
O jovem oficial, como um bom soldado, decidiu comunicar o facto ao seu comandante. Ele ouviu o relato, ficou irritado, fechou a porta do gabinete e começou a ameaçar o jovem dizendo que ia ter problemas graves na vida se divulgasse a sua descoberta.
A máfia que tinha na Jamba o supermercado de droga tremeu.
Os garimpeiros de diamantes e os traficantes de marfim e Mandrax perceberam que as suas actividades criminosas estavam a chegar ao fim.
Os turistas da Jamba entravam e saíam a uma velocidade estonteante. Chegavam de bolsos vazios e partiam com as malas cheias. A ambição levou ao fim dos negócios de uma forma fortuita.
No dia 7 de Outubro de 1989 o jornal Whindhoek Observer publica uma notícia de primeira página que põe a nu a rede mafiosa. A frota aérea civil do país, considerável à luz da sua pequena população, perdeu um bimotor pressurizado, Cessna 340 com a matrícula 3D-A-F-C, quando se despenhou logo após a descolagem, no Sul de Angola, perto da sede da UNITA. João Soares, filho de Mário Soares, na época, Presidente da República Portuguesa estava a bordo e sofreu ferimentos graves.
O avião estava registado na Suazilândia e era propriedade de Joaquim da Silva Augusto, um homem muito rico, proprietário do grupo J&C. O jornal da Namíbia refere que não se sabe quem autorizou um voo civil a cruzar a fronteira para a Jamba onde se encontrava a base da UNITA em Angola.
Excesso de marfim
No dia seguinte, a Imprensa sul-africana dava detalhes importantes: caiu o avião do proprietário de um grande império de negócios e de um armazém de reabastecimento das guerrilhas da UNITA. Os jornais eram unânimes: o avião do senhor Augusto foi forçado a aterrar, logo após a descolagem, por causa da excessiva carga de marfim que transportava, além dos passageiros João Soares (Partido Socialista Português), Rui Gomes da Silva (dep***do do PSD de Portugal), Nogueira de Brito (dep***do do CDS de Portugal) e Gepperth Rainer, alemão, da Fundação Hans Seidel.